sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O dia se espraia sobre mim



O dia se espraia sobre mim, enquanto desejo somente a partilha do sensível.
Não sei que ilhas tenha criado, pontes que recolho no espaço interno de mim mesma.
Altos falantes são estridentes e demasiados – fata morgana anunciando no Facebook que a aldeia é global.
Contudo, mínima.
Tudo é tão pequeno.
Fossos e pontilhões, fundos por demais, enferrujados em demasia.
A escrita se torna árida, terra morta, fogo morto, quando a lareira interna não é mais iluminada como antes.
Tudo é falso, irreal, nessas armadilhas que nos contêm, nas quais nos contemos e nos contamos...
O delírio ainda vem e me leva para a praia onde as crianças brincam:

“On the seashore of endless worlds children meet.” (Tagore).

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O homem das galinhas



Há três anos, o homem das galinhas instalou sua casa à beira do caminho, numa das mais importantes avenidas de Salvador.

O homem das galinhas fica lá, sentado em seu plateau, acima do tempo e do espaço.

O homem das galinhas e seus animais mortos.

O homem das galinhas jamais usa camisa.

Seu corpo e sua mente tornaram-se imunes às intempéries.

O homem das galinhas traz sempre o cabelo muito bem cortado e cuida de sua longa barba.

Ele mata ritualisticamente cães e gatos, enquanto alimenta galinhas, pombos e urubus.

As galinhas também morrem ou são mortas por ele. Para o homem das galinhas, gatos e cães não são gatos e cães.

O homem das galinhas guarda os domingos – único dia em que bebe abertamente e deita-se no chão para descansar.

O homem das galinhas trabalha dentro de um certo perímetro cujo centro é a esquina que considera casa sua. Ele anda de um lado para outro, sempre muito atarefado.

Uma vez, vi o homem das galinhas andar pela minha rua.

No pedaço de calçada que é sua casa, o homem das galinhas empilha garrafas vazias e joga milho pelo chão.

O homem das galinhas é um fator de risco para a saúde pública. Os hospitais do outro lado da rua nada podem contra ele.

Somente uma vez vi o homem das galinhas receber uma visita: um outro homem, igualmente pobre, preto e sujo, igualmente seminu e sem teto.

O homem das galinhas partilhou sua bebida com a visita. O visitante sentou-se cerimoniosamente no meio fio, como quem pede licença.

Nunca vi o homem das galinhas comer algo, ele somente bebe, aparentemente cachaça ou vodka.

O homem das galinhas tem uma misteriosa força. Sem nos ver, e em silêncio, grita discursos aos passantes.

O homem das galinhas não vê os passantes.

Os passantes não veem o homem das galinhas.

O homem das galinhas não fala com ninguém.

Ninguém fala com o homem das galinhas.

A vigilância sanitária de vez em quando leva o homem das galinhas. As galinhas ficam desnorteadas e não conhecem o caminho para longe de casa.

O homem das galinhas sempre volta para casa.

A limpeza pública vem às vezes e remove os animais mortos, grãos e dejetos. Também remove os objetos, bichos de pelúcia, bonecas e enfeites que o homem das galinhas pendurou na única árvore que tem em sua casa.

O homem das galinhas cata outros objetos e os pendura novamente na árvore.

Até que a limpeza pública veio e cortou a árvore.

Nunca vi o homem das galinhas gritar “Fora Temer”.

O homem das galinhas não se importa se estamos no século XXI.

O homem das galinhas está acima de tempo, espaço, leis e normas sociais. Para o homem das galinhas, pouca diferença faz se o mundo e o país em que vivemos ficam mais ou ficam menos enlouquecidos.

O homem das galinhas não quer saber se a terceira guerra mundial está por eclodir.

O homem das galinhas, sendo tão invisível, está ganhando, disparado, a luta contra a vigilância sanitária, a limpeza pública e a prefeitura da cidade de Salvador.

Quem sabe o homem das galinhas possa ganhar a luta contra nossa indiferença e nosso silêncio.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Poema materno inacabado






Poema que li ontem no Seminário: "A Mulher na História do Tempo Presente" (no Instituto Feminino da Bahia).
Para minha mãe, que nunca é ausente.




Mãe é feito sangue consagrado no parto,
o coração trêmulo.
Memórias de mãe são como sangue.
Sangrar é anúncio, pois que mãe é matriz.
Sangue é via veias artérias vida.
Memória tem artérias e são vermelhas.
O sangue marca os ciclos e se lava com água, amor e silêncio.
Quando a menina em susto vê o sangue,
vem a mãe, e vem a água,
e lavam os panos.
Pois que mulher existe entre panos,
e o silêncio é ouro.
A natureza fala por gestos e lágrimas e sangramentos,
o que também se conhece pela palavra amor.

A mãe se desdobra antes de retornar a si mesma,
em concavidades.
Agora cabe à filha o mesmo ancestral gesto de trazer a água
e lavar as marcas do corpo quando não sabe de si mesmo.
E o silêncio é outro.
O cuidado sustenta o existir,
sem palavras.

Mãe é feita de concavidades, colos que se estendem por sobre os dias,
e através das noites.
Nunca se ausenta a mãe das madrugadas,
mesmo se as madrugadas podem trazer sua ausência.
Não deveriam.
Mãe nunca é ausente,
Ela transparece nos gestos e legados.

(Publicado em A Impossível Transcrição.)

terça-feira, 27 de maio de 2014

Na virada dos 60




Na virada dos 60, preparo um livro, na companhia de amigos, de meu filho Mário Vítor, de meu irmão Paulo de Tarso.

Artesanal, feito à mão, quer dizer: com multiplicado afeto.

Esse livro não foi feito "de propósito"; simplesmente aconteceu, a partir de anotações de viagem, em que impressões de paisagens e experiências vão dando lugar a memórias de outro tempo e lugar, até que os sonhos vão falando mais e mais forte. As fotos trazem um registro especial de lugares, vez que revelam ângulos não tão usuais, revelam a experiência vivida, o sentimento singular do viajante - meu filho - para as fotos mais belas - ou eu mesma.

Está hospedado no ISSUU, no link abaixo. Estou ainda tentando inserir o link no blog, para facilitar o acesso.

http://issuu.com/acecil/docs/andancas_by_ana_cecilia_de_sousa_ba?e=3817220/8019863

Com este gesto, celebro a vida, registro de encantamento e estranheza, silêncio e infinita gratidão.

Quando o livro já estava pronto, editorado, prestes a ser aninhado ou hospedado no ISSU (e como esses termos, no ainda tão desconhecido mundo virtual em que cada vez mais navegamos, são cheios de acolhimento!), encontrei a epígrafe perfeita, que precisei incluir e que trago neste post:



Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
(Em: Passagem das Horas.)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Em 8 de dezembro, Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, um antigo poema-oração de meu pai


A Nossa Senhora da Conceição

José Newton Alves de Sousa




Nossa Senhora da Conceição,
Virgem bendita, porta dos céus,
Ouve-me a prece do coração,
Ouve os clamores dos lábios meus.

Ouve-me a prece, Mãe piedosa,
Doce Rainha, Mãe de Jesus,
Ouve-me a prece tão dolorosa,
Entre mil trevas buscando a luz.

Teus olhos claros, volve-os à Terra,
Teus olhos puros, imaculados,
Olhos que o Anjo de Paz descerra
Pra que sejamos santificados.

Olha, Senhora, que noite escura
Pesa, gemendo, sobre a cidade.
E é tão espessa, que só a aclara
Teu olhar santo de Piedade.

Olha, Senhora, quanta desgraça
Pelos caminhos e pelos lares!
Dá que a potência da tua Graça
Sustenha a fúria, domine os mares.

Olha, Senhora, quanta tristeza
Pelos tugúrios sem luz nem pão!
Dá que migalha de tua riqueza
Dissipe as trevas e a inanição.

Olha, Senhora, quanta amargura,
Que sofrimentos no mundo inteiro:
E um gesto, apenas, de tua mão pura
Pode salvá-lo do cativeiro.

Olha, Senhora, quanta maldade,
Quanta ameaça de Sul a Norte!
Tem dó de todos, e tem piedade,
que é triste e escura, sem ti, a morte.

Nossa Senhora da Conceição,
Virgem bendita, porta dos céus,
Ouve-me a prece do coração,
Ouve os clamores dos lábios meus.

Não pode o mundo, não pode o inferno
Contra um só raio do teu Amor.
E quando queres, junto ao Eterno,
Vemos espinhos mudando em flor.

Ouve meus rogos, Mãe poderosa,
Dá paz ao mundo, salva a nação,
Tu que é de todas a mãe ditosa,
Nossa Senhora da Conceição.

Bahia, 30-11-1952.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Antigo poema







Algum dia pensei:
de palavras nos fizeram.
(Palavras, as leva o vento.
Já as esquecemos.)

Algum dia pensei:
não tenho palavras,
estéril estou.
Entregues aos monstros,
irremediavelmente,
estamos.
Não nós, não ninguém.
(Perdição.
Algum dia morri-me.)

Algum dia pensei:
eu tinha uma utopia.
(Se a perdi, utopia era.
“O que amas de verdade não te será tirado”.)
A vida presente, concreta enfim:
mas pensei:
buscar minha utopia preciso,
e nada mais.
(Algum dia incompreendi.)

(1977)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Poética da família e da comunidade, na vida



É belo quando a gente se dá conta de uma síntese que emerge de uma trajetória percorrida com esforço, paixão, feita de trabalho e encontros.

Hoje participo de uma sessão do Café Científico, no ACTA 2013, UFBA, que este ano comporta quatro conferências. Agora me dou conta da beleza que é falar de poética ao falar da pesquisa em psicologia cultural. Os demais conferencistas vêm das áreas de Artes e Biologia. Entre títulos tais como: "Dança Telemática. Dançando com corpos distantes", "Agricultura e Conservação da Biodiversidade: Conflitos e Soluções", e "Supressão, limiares de extinção e conectividade ", lá estou eu falando de poética.

E de tal forma que meu resumo e duas citações que apresento cabem aqui no Casulo. Síntese da qual tomo maior consciência, presente nela.

"Família e comunidade: por que falar de uma poética"?

Esta reflexão nasce de uma trajetória de pesquisa pautada na necessidade de compreender a natureza processual do desenvolvimento humano e de construir uma psicologia sensível ao contexto cultural. No horizonte, o compromisso de contribuir para a promoção de mudança social e a educação de um olhar aberto à realidade de famílias e comunidades vivendo em pobreza. A psicologia cultural do desenvolvimento, tal como delineada por Jaan Valsiner e colaboradores, canaliza a maior parte dessas motivações. Transições desenvolvimentais têm sido um lócus privilegiado de análise, assumindo que representam momentos em que a emergência de novidade psicológica e social é mais provável e explícita e que o estudo dos fenômenos desenvolvimentais não pode deixar de reconhecer a incerteza subjacente à experiência da pessoa em desenvolvimento. Novidade psicológica emerge de um campo de construção de significados, dentro do qual a pessoa se move, negociando demandas heterogêneas, ambivalentes. Todo o processo de desenvolvimento supõe semiose, por conseguinte, mediação. Em um contexto cotidiano, especialmente quando marcado por vulnerabilidade psicossocial, o movimento da pessoa implica um constante deslocamento de significados, nas esferas coletiva e pessoal (Valsiner, 2003, Abbey, 2005). A pessoa age “como se” o mundo fosse diferente, criando distância em relação ao aqui e agora e construindo pontes para o futuro, em direções diversas. É esse mecanismo de distanciamento, que permite a orientação para o futuro através de posições do Eu do tipo “como se”. Está implicada aqui uma poética desenvolvimental de realidades vividas.


Poema-comentário de Emily Abbey:

A experiência poética do pesquisador

pelo incerto entrelaçamento self e outro
self e pesquisa
self e família
self e passado
self e realidade para além das “lentes” através das quais fazemos nossas análises
é mais do que etnografia: é poesia.

É um processo do pesquisador, e do conhecimento,
à medida que eles constroem um ao outro através de ciclos de incerteza,
e do banal que é retirado da prateleira e tomado pelo lápis de uma mulher, mãe;
self e outro.

Não é apenas apresentar o outro, sujeito, em sua vida.

É também, ali à mão, a poética de nossas próprias vidas;
é a incerteza do fazer, de cruzar esta madrugada, e a seguinte, que desafiam nossa força
– e, ao mesmo tempo, estamos sempre como mariposas
atraídas pela luz.

A poética do pesquisador é onde uma incerteza toca uma outra, a seguir, onde o filho contém a mãe e a atemporalidade os envolve no tempo.
Onde há montes e trilhas, olhares e mães alcançam e, ainda assim, não podem alcançar.

Esta é a poética da pesquisa.

(Emily Abbey, sobre um diário de campo de Ana Cecília Bastos)


Enfim:

"Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida".


Drummond.

Foto de Roberto Faria.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

Mãe e Olhares


Olhos

Atrás de seus olhos
minha mãe guarda
os meus cabelos cortados.

Eu estava morta
ou de há muito partida.

Atrás de seus olhos
as coisas estão muito bem postas:
gavetas, papel de seda,
laços de fita.

Eu olhava por seus olhos e via
assim translúcidos,
os ossos de sua face,
móveis, diáfanos,
dissolvendo-se em névoa.


E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados,
meus longos cabelos de criança
cortados para que eu não ficasse raquítica
e porque não cuidava bem deles:
não queria lavar,
não prendia que prestasse,
não queria desembaraçar.

A não ser que ela o fizesse,
dia de sábado, usando óleo “Suave”,
para não doer.


Publicado em A Impossível Transcrição, edição de autor, 2008

domingo, 22 de setembro de 2013

Imagens



que a matéria vida era tão fina
pedra, matéria viva
vida, matéria carne
Vênus nascente, a-manhã-ser
pedra
imagens de infância e amanheceres
a pura água cristalina nascendo da pedra
chapada, música de água, elemento pedra
pedrinhas seixos sexo brincante
ser de húmus e bétula
corpos em árvore, frutos flor sumos o cheiro da mata
colo de Mãe e Terra.


Resposta ao desafio poético em imagens de Tania Contreiras (Arteterapeuta)

Foto: Tomas Rucker

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Olhar de avó


Olhar de avó


E por que esse retorno aflito
de terra e lugar?

Não suporto essa agonia do presente.

Esse vazio, essa dor,
essa posse absoluta do efêmero.

Antes absoluto
esse desejo de raízes...
Estrada, carro de boi,
pés descalços,
vozes,
tardes.

Antes fora eu reencontrada
nesse olhar de avó
que é lembrança tão doce.

O dia se espraia sobre mim

O dia se espraia sobre mim, enquanto desejo somente a partilha do sensível. Não sei que ilhas tenha criado, pontes que recolho no espaço ...